• Silvia Lima Vallochi    Psicóloga Clínica

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“A sabedoria mais antiga do mundo nos diz que a união consciente com o divino, ainda neste corpo, é possível porque o homem realmente nasce. Se ele não conseguir realizar seu destino, a Natureza não tem pressa. Ela o alcançará um dia, impelindo-o a cumprir seu próprio secreto."

 

Por que adoecemos?

 

            Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), “Saúde é o total bem estar biopsicosocial do homem”. Uma vez que ninguém fica em total bem estar, esta definição implica na noção de doença. A doença é compreendida como um “continuum de desequilíbrio”, ou seja, um estado permanente de desequilíbrio nos aspectos do biopsicosocial: corpo, psique (emoções e sentimentos) e social (relações). Por saúde, então, entende-se um “continuum de equilíbrio”

            Como se trata de uma condição humana, não tem sentido lidar com essas noções opostas de forma rígida e dialética. Assim, é necessário conceber uma idéia intermediária entre elas, o Desequilíbrio Temporário; chamada de Transtorno pelos estudiosos antigos, antes até das nomenclaturas da Psiquiatria.

            Dentro desta concepção do ser humano, entende-se que estamos sempre no estágio de transtorno e não de saúde, pois nunca estamos num estado permanente de equilíbrio. Sofremos muitas influências negativas, somos “bombardeados” por problemas dos outros, por notícias de violência, enfim, imputam a nós apenas referenciais negativos a todo momento que nos afetam e nos deixam sob alta pressão. Essa alternância de lidar com os agentes estressores, ora conseguindo, ora não conseguindo, é o que nos coloca nesta condição de Transtorno – desequilíbrio temporário. Quando temos maior dificuldade em lidar com isso e entramos num estado de desequilíbrio, adoecemos. Segundo a OMS, em média 60% da população mundial pode ser classificada como Doente.

           Podemos pensar que o ser humano tem, no adoecer, algumas necessidades para exteriorizar:

  1. A doença é usada como uma válvula de escape dos conflitos intrapsíquicos;
  2. Serve para demonstrar a incapacidade da pessoa em expressar de forma adequada suas emoções, sentimentos e sensações;
  3. Desejo de autopunição: não aceitar acontecimentos bons, pois isso vai contra sua vivência de inferioridade na infância ou como papel familiar;
  4. Ganhos secundários que a doença orgânica traz consigo (como atenção, cuidados especiais, companhia etc)
  5. Necessidade de pertencer e fazer parte do clã (ter o que familiares têm, ou que um deles em especial tem; repetir condutas de gerações para não ser a “ovelha negra”).

 

            Para começarmos a entender este ponto de vista, é preciso iniciar pensando que o que é importante para o ser humano ele não controla: a vida, a morte e o afeto. Mas temos uma tendência enorme a querer controlar esses fatores para podermos diminuir nossa insegurança, nosso medo. É querer controlar tudo isso que nos dá preocupações, ansiedade, estresse, perdemos nosso referencial e o nosso foco na vida.

            O modo como somos criados e como a sociedade foi se desenvolvendo nos faz sermos pessoas sem real compreensão de nós mesmas, sem conhecimento de nosso corpo e de como as situações e emoções nos afetam, nos tocam. As pessoas não se conhecem e não expressam suas emoções adequadamente. Se todo ser humano tem a capacidade se sentir qualquer e todo sentimento então a questão é saber lidar com isso dentro dos parâmetros de cada pessoa. O que você está fazendo com o que você sente?

            A falta do conhecimento de nós mesmos faz com que não identifiquemos o que é necessário mudar, pois antes mesmo de nomear o que sentimos, precisamos perceber onde está o incômodo. Sem esta identificação não é possível aceitar o que não vai bem ou o que está nos faltando.  Podemos escolher mudar ou não, mas só conseguimos mudar o que aceitamos (questionamos e percebemos que aquela condição não nos faz bem) e só podemos aceitar aquilo de que temos conhecimento.

           Para a Psicossomática, que tem uma visão holística, a doença é compreendida como uma forma da pessoa externalizar conflitos. Na maioria das vezes, entretanto, não temos entendimento do que exatamente estamos tentando externalizar. Adoecemos por uma opção inconsciente.

           Quando estamos dirigindo e uma luz do painel se acende, logo pensamos que algum problema está acontecendo no carro. Não pensamos que o problema está na luz porque temos a compreensão de que a luz acesa é um sinal, um alerta. Se o carro é o Todo e a luz o Sinal de que algo não está bem, não adianta nada tomarmos atitudes referentes apenas à luz, como trocar a lâmpada, retirá-la de lá ou qualquer ato enfim. Precisamos decifrar o sinal para podermos atuar no todo, que é o carro. Pode ser falta de óleo, porta aberta, freio de mão puxado, etc, dependendo de qual sinal é acionado. Mas tudo pertence ao carro; logo, é este que precisa ser investigado.

           É assim também no ser humano. O corpo é o carro, aquele que possui uma complexidade de órgãos, reações químicas, interrelações, psiquismo. A luz da lâmpada que se acende no painel é a doença. É o aviso que o sistema não está em pleno funcionamento e precisa ser avaliado. Não se trata de um determinado órgão, ou parte do corpo, estar doente. O organismo todo está, pois nós somos os órgãos, da mesma maneira que o carro é o conjunto das peças e suas funções. Nós não temos peças, nós somos as peças.

           Ou seja, “a doença é um estado do ser humano que indica que, na sua consciência, ela não está mais em ordem, ou seja, sua consciência registra que não há harmonia. Essa perda de equilíbrio interior se manifesta no corpo como um sintoma. Sendo assim, o sintoma é um sinal e um transmissor de informação, pois, com seu aparecimento, ele interrompe o fluxo da nossa vida e nos obriga a prestar-lhe atenção. O sintoma nos informa que está faltando alguma coisa.*1 Quando não está faltando nada estamos sadios, perfeitos, íntegros. Quando falta consciência tem-se um sintoma.

            A Psicossomática é um referencial teórico que nos dá bagagem para buscar essa compreensão profunda, interrelacionando todos os conceitos da totalidade bio psico social energética espiritual ecológica. Ampliando seus conceitos, nossas condutas, influências e correlacionando todos eles, temos uma visão integrativa do ser humano. É buscar a diferença entre lutar contra a doença e transmutar a doença. Vencer um sintoma não nos leva à cura. Essa só vem com a transmutação da doença; só acontece através da incorporação daquilo que está faltando e, portanto, ela não é possível sem uma expansão da consciência.

           A Psicoterapia Profunda tem como objetivo ajudar o indivíduo a analisar seu histórico de vida, as influências que recebeu e como as filtrou, quais são seus reais valores e quais os “comprados”, como é sua dinâmica de solução de problemas e para onde direciona sua vida, o que está lhe faltando, o que seus sintomas estão querendo dizer. É através de reflexões como essas que passamos a nos conhecer melhor e a decifrar as nossas “luzinhas acesas”. A questão não é buscar uma vida sem problemas, uma vez que ter problemas faz parte da condição humana, mas sim aprender a lidar com eles. E quando sabemos quais são e como eles nos tocam fica tudo mais fácil.

Dethlefsen, T; Dahlke, R.  –  A Doença como Caminho, 14a ed, São Paulo: Cultrix, 2007        

 

 

 

UMA REFLEXÃO SOBRE A EDUCAÇÃO HUMANA NA ERA ANTIGA E NA MODERNA

OS DOZE TRABALHOS DE HÉRCULES

          

Por que se preocupar e estudar a Mitologia? O que os mitos podem nos ensinar? Na Grécia antiga, as narrativas míticas exerciam papel fundamental no cotidiano, pois eram consideradas a forma através da qual os deuses falavam ao homem sobre a arte de viver e amar. A vivência dos mitos inclui a valorização dos componentes irracionais, permitindo a liberação de emoção, arte e cultura na busca de uma vida mais plena.

A idéia de que o conhecimento é o que forma o homem e lhe confere dignidade surgiu no Iluminismo e perdura até os tempos atuais.  O Iluminismo trouxe a idéia de que quanto mais conhecimento o homem obtivesse, mais bem formado e pronto para enfrentar a vida estaria. Mas, para o pensamento arcaico, formar um homem não era uma questão de conhecimento.

 Para os arcaicos, a educação – a Paidéia – significava, antes de tudo, formar um homem “obra de arte, ético e criador”. O objetivo primordial da Paidéia eram os três pilares para a construção do Homem: o direito de nascer, viver e morrer com dignidade e honra; o conhecimento formal da escrita e outros conhecimentos eram transmitidos num outro momento, muitos anos depois. Como pregou Sócrates, “Temos pouco tempo para a virtude e toda a vida para o conhecimento, pois o vício e a mentira logo se instalam no caráter do jovem, sendo tarefa quase sempre fadada ao fracasso tentar extirpá-los mais tarde”.

Assim, a Paidéia consistia na construção e formação do homem a partir dele mesmo, do que tinha de mais próprio e essencial, mas a serviço da criação e não da destruição. Os Doze Trabalhos de Hércules eram utilizados como a base da Paidéia e todos traziam a mensagem: “Para cumprir as grandes tarefas que a vida propõe, de nada adiantarão músculos, mas a sabedoria e a arte de encontrar meios e a arte de amar”.

O objetivo desta palestra é apresentar os Doze Trabalhos de Hércules e fazer uma leitura psicológica sobre nosso desenvolvimento como indivíduo. Cada trabalho simboliza um conteúdo psíquico a ser integrado; como entender os conflitos e as dificuldades pelas quais estamos passando; como focar e transformar certas atitudes.

A idéia moderna de liberdade é totalmente irresponsável, individualista e baseada no poder financeiro para ser obtida. Para os arcaicos, cumprir seu destino era o máximo de liberdade responsável que alguém poderia almejar. Significava ainda entender o que veio fazer aqui, qual era sua função e natureza, e ajudava a compreender seu mistério de existir. E essa necessidade humana perdura até hoje. Se o mito é uma forma de refletirmos sobre nossa existência, vamos pedir para que o maior herói da mitologia nos ajude a entender nosso caminho!

 

 

COMO LIDAR COM A ANGÚSTIA DO SER

 

            Estamos acostumados a falar sobre o desenvolvimento do ser humano de forma categorizada e estruturada, com metas a serem atingidas em cada fase da vida. Dar os primeiros passos por volta do primeiro ano de vida, lidar com regras aos sete, “trocar” os parentes por amigos na pré-adolescência, chorar pelo primeiro amor na adolescência, enfrentar as responsabilidades da vida adulta e lidar com o processo do envelhecimento após os cinquenta. Falar disso hoje em dia parece fácil e objetivo, tal o avanço já feito nesta área de conhecimento. Entretanto, o Ser Humano não funciona assim. Apesar de categorizados, somos únicos e não funcionamos como uma massa. Essa estruturação do desenvolvimento é só uma referência para observação e estudo, e assim o é.

            A angústia vital é um sentimento que nos acompanha praticamente desde o nascimento nos perguntando ‘de onde viemos’ e ‘por que estamos aqui’. Não temos respostas; não conseguimos lidar com uma explicação que nos contente e tire esse sentimento de nosso peito. Mas também temos a angústia diária. Aquela que vem pra nos mostrar como temos dificuldade em lidar com nossas frustrações. Como não conseguimos atingir alguns objetivos, não aceitamos o ‘não’! Ufa! Como é horrível receber um não… E olha que recebemos não o tempo todo, di-a-ri-a-men-te… Mas não esperamos e não aceitamos.

            Estamos na “Era tecnológica”. Nos comunicamos com velocidade, estamos conectados ao mundo todo e temos facilidades jamais pensadas no início do século passado. Como é bom ter nossos contatos e conexão com o mundo na palma da mão! Mas o que isso tem proporcionado para nosso amadurecimento psíquico e para a manutenção de nossa saúde?

Quando crianças precisamos dos referenciais de nossos pais e pessoas próximas para termos a noção do que é o mundo. Imitamos, nos aventuramos e aprendemos. Errando e corrigindo. Esse processo de ‘tentativa e erro’ ajuda, e muito, em nossa aprendizagem. E na nossa diferenciação do Outro.  Inicia-se o processo de nos tornarmos indivíduos. Ou seja, começamos nossa vida buscando modelos que nos digam como ser e como agir, para depois lutarmos para nos diferenciar e descobrir quem somos. No meio deste caminho nos deparamos com ajuda e impedimentos, estímulos e descrenças. E isso tudo banhados pela Angústia Vital.

Com o advento da tecnologia nos deparamos com um problema crucial no nosso caminho: o Tempo. Ele não tem mais o mesmo sentido que tinha antes, como muito bem mostrado na Série da Netflix “O tempo que o tempo tem”. Não nos ligamos mais à Natureza de acordo com a luz solar, com as estações do ano ou com o tempo das chuvas. Mudamos o tempo. Mudamos a noção do tempo. Algo que acontece “pra lá de Bagdá” já não nos parece tão longe; com um clique temos todas as informações de que precisamos, em tempo real. As Flores de Maio não aparecem mais no mês de maio…

Se conseguimos acesso a tudo do externo com muita rapidez e facilidade, como estamos tendo acesso ao nosso mundo interno? Como definimos nossos sentimentos? Como reconhecemos o que é nosso e o que é do Outro? Como lidamos com nossas angústias?

Não há dúvidas de que a tecnologia trouxe muitos benefícios ao homem, mas também tem nos distanciado muito de nós mesmos. E as consequências desse afastamento já estão aparecendo. Não se trata apenas de observar que uma família inteira já não conversa mais numa mesa de restaurante porque cada um tem seu smatphone ou seu tablet. Mas se trata do distanciamento entre seres da mesma espécie, que intrinsecamente têm as mesmas necessidades, as mesmas emoções. Estão sempre unidos neste mundo globalizado, mas também sempre sós…

Como disse anteriormente, precisamos de modelos para nos desenvolvermos. Precisamos do contato com o outro para nos expressarmos, nos identificarmos, nos reconhecermos. Criticar, analisar, contrabalancear. Quando nos sentimos sós é como se nada disso fosse possível. Clicar um botão e ‘voltar à vida’ após a morte numa fase de um jogo de videogame não nos ensina a lidar com o fim. Nem com a frustração, pois rapidamente ela desaparece e dá lugar à crença de que desta vez vamos conseguir. Não entrar em contato com um sentimento, com a emoção mais profunda que o gera, não nos ensina a nos reconhecer e a lidar com o Outro. E isso nos deixa mais sós. Mas com aquela solidão mais profunda, que é a de estarmos sem nós mesmos.

Temos várias formas de estarmos conectados com nossa Alma, nossa Psique Profunda. A meditação é um modelo bastante eficiente, pois é através dela que aprendemos a diminuir a velocidade de nossos pensamentos, a “ouvir” nossos anseios e desejos, a encontrar respostas. Seja correndo num parque, nadando, ou meditando silenciosamente num quarto, quando utilizamos uma forma de nos desconectarmos do mundo externo para nos ligarmos ao mundo interno, as respostas aos poucos vão chegando. Como não há possibilidade de uma vida sem problemas e dificuldades, a questão é descobrir o melhor modo de lidarmos com eles, profunda e individualmente.